Alguns aprendizados de vida requerem muitos anos para serem aceitos e interiorizados naturalmente. Em um jogo de tentativa e erro se chega a um ponto que une aceitação, dosagem e desprendimento do senso comum - o ponto de equilíbrio.
Ela demorou para compreender que, para ela, o que funciona em situações extremas é viver plenamente sua tristeza. Esgotá-la, exauri-la, chorá-la, revisar suas causas e alcançar as consequências, num exercício de purificação. E foi assim que ela aprendeu a determinar o início, meio e fim de um ciclo de dor.
Na última semana mais um ciclo voraz lhe atacou de surpresa. Sem vontade de conversar com colegas e amigos sobre o que lhe afligia novamente, tudo o que ela desejava era poder trabalhar em home office, para, pelo menos, não precisar encarar a mais temida das perguntas em dias assim:
"Tudo bem?". É odioso ouvir de alguém com pouca sensibilidade essa ingênua pergunta quando não está tudo bem. Aliás, quando é que está TUDO bem?!
E ela se debate interiormente, dividida entre mentir que sim e encerrar o momento constrangedor, ou dizer a simples verdade - "não, não está tudo bem" - e ouvir um plastificado "nossa, o que houve?" que inevitavelmente prolongaria a conversa. Enfim, trabalhar de casa seria o remédio impossível em uma semana cheia de reuniões.
Então ela foi para a empresa e permaneceu quieta pelo máximo de tempo possível nesses dias cinzas. E curtiu sua tristeza em toda brecha encontrada entre as pesquisas urgentes pedidas pelo chefe. Curtiu, revisou as causas, pensou em enfiar os pés pelas mãos inúmeras vezes, lembrou dos compromissos - financeiros e morais - que lhe acorrentam atualmente e recuou. Ao chegar em casa bebeu todo vinho de que dispunha e chorou repetidamente até sentir desidratação. Até secar.
Ela poderia ter fugido da tristeza. Poderia ter tentado desviar dela nas esquinas, ou poderia ter chamado amigos para distrair o coração. Mas sempre que ela voltasse para casa, deitasse na cama e apagasse a luz, sempre reencontraria sua dor irresolúvel. E isso prolongaria um sofrimento crônico, nada saudável.
Muito melhor chorar copiosamente por dois ou três dias - são suficientes, se sinceros ou viscerais - e se levantar da cama em um novo dia, do que transformar uma dor aguda em doença crônica.
Hoje ela já era capaz de sorrir e ver cores à sua volta novamente. E quase era possível se reconhecer no espelho: marota, positiva e capaz de mudar o mundo, como ela sempre quis mudar.
Porque finalmente aprendeu que ela é uma mulher cíclica.



