sábado, 22 de outubro de 2011

Viver a tristeza também é viver

Alguns aprendizados de vida requerem muitos anos para serem aceitos e interiorizados naturalmente. Em um jogo de tentativa e erro se chega a um ponto que une aceitação, dosagem e desprendimento do senso comum - o ponto de equilíbrio.

Ela demorou para compreender que, para ela, o que funciona em situações extremas é viver plenamente sua tristeza. Esgotá-la, exauri-la, chorá-la, revisar suas causas e alcançar as consequências, num exercício de purificação. E foi assim que ela aprendeu a determinar o início, meio e fim de um ciclo de dor.

Na última semana mais um ciclo voraz lhe atacou de surpresa. Sem vontade de conversar com colegas e amigos sobre o que lhe afligia novamente, tudo o que ela desejava era poder trabalhar em home office, para, pelo menos, não precisar encarar a mais temida das perguntas em dias assim:
"Tudo bem?". É odioso ouvir de alguém com pouca sensibilidade essa ingênua pergunta quando não está tudo bem. Aliás, quando é que está TUDO bem?!
E ela se debate interiormente, dividida entre mentir que sim e encerrar o momento constrangedor, ou dizer a simples verdade - "não, não está tudo bem" - e ouvir um plastificado "nossa, o que houve?" que inevitavelmente prolongaria a conversa. Enfim, trabalhar de casa seria o remédio impossível em uma semana cheia de reuniões.

Então ela foi para a empresa e permaneceu quieta pelo máximo de tempo possível nesses dias cinzas. E curtiu sua tristeza em toda brecha encontrada entre as pesquisas urgentes pedidas pelo chefe. Curtiu, revisou as causas, pensou em enfiar os pés pelas mãos inúmeras vezes, lembrou dos compromissos - financeiros e morais - que lhe acorrentam atualmente e recuou. Ao chegar em casa bebeu todo vinho de que dispunha e chorou repetidamente até sentir desidratação. Até secar.

Ela poderia ter fugido da tristeza. Poderia ter tentado desviar dela nas esquinas, ou poderia ter chamado amigos para distrair o coração. Mas sempre que ela voltasse para casa, deitasse na cama e apagasse a luz, sempre reencontraria sua dor irresolúvel. E isso prolongaria um sofrimento crônico, nada saudável.

Muito melhor chorar copiosamente por dois ou três dias - são suficientes, se sinceros ou viscerais - e se levantar da cama em um novo dia, do que transformar uma dor aguda em doença crônica.
Hoje ela já era capaz de sorrir e ver cores à sua volta novamente. E quase era possível se reconhecer no espelho: marota, positiva e capaz de mudar o mundo, como ela sempre quis mudar.
Porque finalmente aprendeu que ela é uma mulher cíclica.

sábado, 15 de outubro de 2011

Vítima do seu próprio escudo

Ela se deu conta, um dia, de que provavelmente perdeu definitivamente o seu amor.
Que tardou demais em perceber que era mais do que empatia, afinidade, paixão ou carinho. E que não deveria ter subestimado tudo isso, em função do seu fucking escudo particular.
Tem explicação:

Houve uma vez, há muito tempo, em que ela disse a si mesma e aos amigos mais chegados que já não seria capaz de se apaixonar. Viveu fechada para novas possibilidades, brincando com relacionamentos e desdenhando as armadilhas do coração. Se convencia de que era suficientemente feliz, para minutos depois reconhecer quão teatral era sua personalidade ali, fabricada por referências culturais e artigos comportamentais escritos por quem jamais a conhecera. Mas ela sobrevivia, a duras penas, mas sobrevivia a isso tudo.

Entretanto, houve uma primavera em que a paixão e o seu suposto antigo amor lhe bateram a porta, um após o outro. Primeiro veio a paixão, embora paradoxalmente serena - e trazendo flores. Veio, se instalou e a conquistou com a promessa de um futuro tranquilo e feliz... até que um dia o jogo virou e ele foi embora, sem convincentes explicações. Ela se quedou olhando para a porta, estupefata, tanto pela perda inesperada (pois ela se recusava a acreditar nos sinais captados há semanas), quanto por ver-se devastada. Justo ela que se julgava incapaz de se apaixonar de novo. Não depois da enorme decepção que lhe causara o homem que, até então, tinha sido o seu maior amor.

Passados poucos dias - uma semana, no máximo - foi justamente o seu amor mal resolvido que reapareceu. E, fragilizada, ela acreditou que valeria a pena ter com ele a conversa franca que nunca tiveram. Quem sabe dessa vez seria diferente? Quem sabe ele havia mudado para melhor? Quem sabe haveria uma chance... e ela cedeu.
Realmente tiveram a DR que faltou nos três anos em que arrastaram um sentimento indefinido e doentio, entre idas e vindas, entre choro e súplicas. Mas ela já não acreditava na verdade daquele amor. Despido de toda mágoa e reserva, ele não passava de uma longa e mal resolvida paixão que lhe procurava sempre que estava fragilizado, sugava tudo de bom que ela tinha e, tão logo se recuperava, ia embora. E ele foi embora outra vez.

Só que nesse meio-tempo, nessa confusão mental em que ela se encontrava, é que apareceu alguém realmente legal. Um cara que lhe ofereceu o ombro e bons conselhos em uma festa em que ela ainda estava suspensa no espaço, oscilando entre o namoro que acabara e o acerto de contas com o antigo caso, com quem ela estava então saindo. Naquela noite tudo o que ela conseguia pensar em lhe oferecer - e tudo o que ele parecia querer mesmo - era a sua amizade sincera; ela percebeu que ele era um bom sujeito afinal. Mas foi aí que começaram seus maiores "problemas".
Quando ela reparou naqueles olhos negros.

- Continua -