Ela se deu conta, um dia, de que provavelmente perdeu definitivamente o seu amor.
Que tardou demais em perceber que era mais do que empatia, afinidade, paixão ou carinho. E que não deveria ter subestimado tudo isso, em função do seu fucking escudo particular.
Tem explicação:
Houve uma vez, há muito tempo, em que ela disse a si mesma e aos amigos mais chegados que já não seria capaz de se apaixonar. Viveu fechada para novas possibilidades, brincando com relacionamentos e desdenhando as armadilhas do coração. Se convencia de que era suficientemente feliz, para minutos depois reconhecer quão teatral era sua personalidade ali, fabricada por referências culturais e artigos comportamentais escritos por quem jamais a conhecera. Mas ela sobrevivia, a duras penas, mas sobrevivia a isso tudo.
Entretanto, houve uma primavera em que a paixão e o seu suposto antigo amor lhe bateram a porta, um após o outro. Primeiro veio a paixão, embora paradoxalmente serena - e trazendo flores. Veio, se instalou e a conquistou com a promessa de um futuro tranquilo e feliz... até que um dia o jogo virou e ele foi embora, sem convincentes explicações. Ela se quedou olhando para a porta, estupefata, tanto pela perda inesperada (pois ela se recusava a acreditar nos sinais captados há semanas), quanto por ver-se devastada. Justo ela que se julgava incapaz de se apaixonar de novo. Não depois da enorme decepção que lhe causara o homem que, até então, tinha sido o seu maior amor.
Passados poucos dias - uma semana, no máximo - foi justamente o seu amor mal resolvido que reapareceu. E, fragilizada, ela acreditou que valeria a pena ter com ele a conversa franca que nunca tiveram. Quem sabe dessa vez seria diferente? Quem sabe ele havia mudado para melhor? Quem sabe haveria uma chance... e ela cedeu.
Realmente tiveram a DR que faltou nos três anos em que arrastaram um sentimento indefinido e doentio, entre idas e vindas, entre choro e súplicas. Mas ela já não acreditava na verdade daquele amor. Despido de toda mágoa e reserva, ele não passava de uma longa e mal resolvida paixão que lhe procurava sempre que estava fragilizado, sugava tudo de bom que ela tinha e, tão logo se recuperava, ia embora. E ele foi embora outra vez.
Só que nesse meio-tempo, nessa confusão mental em que ela se encontrava, é que apareceu alguém realmente legal. Um cara que lhe ofereceu o ombro e bons conselhos em uma festa em que ela ainda estava suspensa no espaço, oscilando entre o namoro que acabara e o acerto de contas com o antigo caso, com quem ela estava então saindo. Naquela noite tudo o que ela conseguia pensar em lhe oferecer - e tudo o que ele parecia querer mesmo - era a sua amizade sincera; ela percebeu que ele era um bom sujeito afinal. Mas foi aí que começaram seus maiores "problemas".
Quando ela reparou naqueles olhos negros.
- Continua -
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